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*Foto: Kevin Carter

O movimento digital, principalmente com as câmeras de celular[bb], está gerando uma obsessão por registrar todos os momentos que vivemos. Isso já acontecia com a fotografia analógica, mas não chega perto da quantidade de conteúdo que você pode gerar com o digital. Principalmente com a necessidade do imediatismo que a internet e as redes sociais[bb] nos exigem. “Em um mundo moderno os elos duráveis e notoriamente consolidados de família, classe, religião e casamento desapareceram, buscamos algo que nos mantenha ligados ao outro. E a ascensão das redes sociais, assim como as fotos compulsivas das câmeras digitais[bb], seriam meios de validar nossa existência.” [Amor Líquido (Zahar), Zygmunt Bauman]

Essa necessidade de registrar o presente gera um efeito colateral: quem está com a câmera na mão acaba se tornando espectador e não interfere nas situações que são objeto de seu registro. O que isso significa? Imagine um acidente em que alguém, que deveria ajudar a socorrer a vítima, saca seu iPhone[bb] e começa a fazer fotos para enviar para seu Twitter[bb]. Nessa hora existem dois tipos de fotógrafo: o casual, que só quer gerar buzz no seu site com as fotos e o profissional que enxerga nas fotos cifrões ao vender o conteúdo fotografado para o jornal local. No exemplo acima eu exagerei um pouco para mostras os extremos que podem acontecer. Existem casos em que outras pessoas já estão socorrendo e que o fotógrafo faz o registro sem a necessidade de ajudar. Estes dois vídeos ilustram bem (via Larissa R.):

This American Life

This American Life: Still Life

Hoje a fotografia está muito mais acessível e o equipamento não é mais um impeditivo pra alguém que fotografa por hobby fazer fotos com qualidade como um profissional. O Clicio fez um post muito interessante sobre como essa democratização da fotografia afeta e está afetando os fotógrafos. Com essa facilidade em fazer fotos com qualidade e em quantidade partimos da obsessão para a ética. Por trás de cada click está a intenção do fotógrafo em mostrar a cena registrada. Infelizmente, sobre essa intenção, só o fotógrafo pode falar.

whattheduck.net

No post Uma foto pode matar?, Danilo Siqueira mostra o caso de uma foto, uma das mais famosas que retrata a miséria, onde o fotógrafo Kevin Carter veio a se suicidar por causa dela.

Foto: Kevin Carter

Foto: Kevin Carter

Death by Photography: A Kevin Carter Case Study

James Natchwey também tem fotos muito fortes da fome no Sudão e em seu filme War Photographer ele explica em que situações as fotos foram feitas.

Sudão

Foto: James Natchwey. Vítima da fome em campo de recuperação

One hundredth of a second é um curta sobre a fotografia de guerra e como o fotógrafo tem que escolher entre fazer a foto e ajudar o próximo – que na maior parte das guerras não é possível e com certeza é risco de morte. Quando o fotógrafo escolhe fotografar a guerra ele sabe que as coisas não serão fáceis, que irá ver e fotografar muita desgraça e que sua vida está em risco constante.

One hundredth of a second

No meio de tudo isso existe a discussão ética da exploração que o fotógrafo faz da imagem da miséria e da pobreza alheia em benefício próprio. Por mais chocantes ou mais sublimes que sejam as imagens, a intenção do fotógrafo é o que perturba quando ele pousa a cabeça sobre o travesseiro todo dia. As imagens são feitas com o intuito de gerar renda, afinal, fotojornalismo é uma profissão e o fotógrafo vive disso.

No post Miséria para quem precisa o autor cita o documentário Enjoy Poverty e mostra que a exploração da miséria não é feita só pelos fotógrafos que vêem de fora, mas também pelos nativos – isso no caso da África.

Enjoy Poverty

Neste outro post, A miséria fotográfica, o autor fala sobre a fotografia de pessoas de rua, não condenando este ato, mas te levando a pensar sobre a situação das pessoas fotografadas.

Pra finalizar gostaria de indicar a visita ao blog do João Wainer que faz um trabalho muito interessante de fotojornalismo[bb]. Não só fotografando, mas contando um pouco da história daquelas pessoas.

*Post inspirado na discussão iniciada semana passada na lista LomoBR depois que enviei o post Fotografia: de arte a doença mental.

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  1. Fabiana (Reply) on Sunday 17, 2010

    Gostei muito da análise feita. Parabéns!